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HISTÓRIA DO JUDO
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Jigoro Kano

O PAI DO JUDO

Jigoro Kano nasceu em 28 de Outubro em Hamahigashi, na Vila de Mikage (hoje uma parte da cidade de Kobe) na perfeitura de Hyogo. Era o terceiro filho de Jirosaku Maresiba Kano, intendente naval do Shogunat Tokugawa.

Eis as grandes etapas da sua vida:  

* Em 1877 entra na Universidade Imperial de Tóquio;  
* Torna-se aluno do mestre Fukuda (ju-jitsu);  
* Funda, em 1878, o primeiro clube de basebol do Japão (Kasei Baseball Club);  
* Em 1879 estuda ju-jitsu na escola do mestre Iso;  
* Em 1881 é licenciado em letras e estuda ju-jitsu da escola de Kito;  
* Em 1882 termina os seus estudos de ciências estéticas e morais;  
* Funda, em Fevereiro desse ano, a sua própria escola de ju-jitsu o Kodokan e em Agosto é nomeado professor no Colégio dos Nobres;  
* Em 1884 é adido ao Palácio Imperial;  
* No ano seguinte obtém a 7ª categoria Imperial;  
* Em 1886 obtém a 6ª categoria Imperial; é nomeado vice-presidente do Colégio dos Nobres, passando a reitor do mesmo colégio dois anos depois;  
* De 1889 a 1891 percorre a Europa como adido ao ministério da Casa Imperial;  
* Em Abril de 1891 é nomeado conselheiro do Ministro da Educação Nacional e Director da Escola Normal Superior. Em Setembro de 1893 é nomeado Secretário do Ministro da Educação Nacional;  
* Em 1895 obtém a 5ª categoria Imperial;  
* Cria em 1897, a Sociedade Zoshi-Kai e funda os institutos Zenyo Seiki e Zenichi para a cultura dos jovens; Edita a revista Kokusiai;   
* Em 1898 é director da Educação primária, no ministério da Educação Nacional;  
* Torna-se presidente da comissão do Butokukai (Centro de Estudos das artes militares em 1899;  
* É enviado por duas vezes à China pelo Ministro Nacional (1902-1905);  
* Em Outubro de 1905, obtém a 4ª categoria Imperial;  
* Exemplifica em 1907, no Butokukai, os três primeiros kata do judo;  
* Em 1909 modifica os estatutos do Kodokan, tornando-o numa sociedade pública;  
* Torna-se o primeiro japonês membro do Comité Olímpico Internacional;  
* Em 1911 é eleito presidente da Federação Desportiva do Japão;  
* Funda em 1915 a revista do Kodokan;  
* Recebe no mesmo ano, do Rei da Suécia a medalha dos 7ºs Jogos Olímpicos;  
* Em 1920 consagra-se inteiramente ao Judo;  
* Em Julho, assiste aos Jogos Olímpicos de Antuérpia, visitando depois a Europa;  
* Em 1921 demite-se da presidência da Federação Desportiva do Japão;  
* Em 1922, passa a ter lugar na Câmara Alta;  
* Em 1924 é nomeado professor honorário da Escola Normal Superior de Tóquio;  
* Em 1928 participa na assembleia geral dos Jogos Olímpicos e nos próprios jogos;  
* Desloca-se aos Estados Unidos em 1932 para assistir aos Jogos Olímpicos;  
* Torna-se conselheiro do Gabinete de Educação Física do Japão;  
* Participa por duas vezes no Conselho dos Jogos Olímpicos que lançará os convites para os jogos japoneses (l932-1934);  
* Em 1936 assiste aos XI Jogos Olímpicos de Berlim;  
* A 4 de Maio de 1938, morre a bordo do navio que o transportava ao Cairo onde se realizava a assembleia geral do Comité Internacional dos Jogos Olímpicos;  
* Recebe a título póstumo a 2º Categoria Imperial.

Neste resumo pode-se ver que Jigoro Kano para além de uma vida pública repleta de actividade, ao mesmo tempo, conseguir conciliar a difusão do judo por todo o Mundo.

DO SONHO À REALIDADE  

Jigoro Kano media apenas um metro e cinquenta, pesando uns escassos 48 kg. De saúde delicada, aos 16 anos, decidiu fortificar o corpo, praticando ginástica, remo e basebol. No entanto estes desportos eram demasiado exigentes para a sua débil constituição. Apesar de ser de filho de um samurai nas brigas entre estudantes, Kano era sistematicamente vencido, por tal facto decidiu estudar o ju-jitsu. O seu primeiro professor foi Hachinosuke Fukuda, da Escola Tenjin-Shin yo-Ryu. Sob, a direcção deste mestre, Kano iniciou-se nos métodos da Escola «Coração de Salgueiro». Em 1879, com 82 anos, Fukuda morreu e Kano herdou os seus arquivos e segredos. Tornou-se seguidamente aluno de Mestre Iso, um sexagenário que possuía os segredos de uma escola derivando igualmente de Tenjin-Shingo.

Interessado como era, Jigoro Kano treinou-se afincadamente enquanto prosseguia os seus estudos e tornar-se-ia em breve vice-presidente da escola. Infelizmente, Iso morreu muito cedo e o nosso jovem ju-jitsuka (praticante de ju-jitsu) encontrou-se de novo sem professor.  Apesar de estar na posse dos livros e documentos que lhe tinham sido legados pelos seus ex-mestres, achou indispensável ser acompanhado por um bom professor. Foi então que encontrou mestre Iikugo, que lhe ensinou a técnica e os métodos da escola de Kito com a particularidade de nesta escola ter aprendido o combate com armadura.

Aos poucos, Kano foi aglutinando os métodos das diversas escolas, criando um sistema próprio de disciplina, continuando no entanto a treinar-se com mestre Iiku-go até 1885. Em Fevereiro de 1882 instalou-se no pequeno templo budista de Eishosi, da seita Jôdo. É neste templo, berço do Judo, que Jigoro Kano instala o seu primeiro dojo (sala própria para o estudo do judo).

Vivendo nas dependências do templo com alguns alunos e uma velha criada, dedicou-se pacientemente a desenvolver um novo método de educação física e formação de carácter, baseado no ju-jitsu.

Kano fez a síntese das melhores técnicas de ju-jitsu, escolheu os golpes mais eficazes e os mais racionais. O ju-jitsu era urna prática guerreira baseada na ligeireza do corpo e do espírito no entanto tinha diversas técnicas perigosas que foram eliminadas, aperfeiçoou a maneira de cair, criou uma vestimenta especial de treino (o judogi), pois o antigo trajo dos ju-jitsukas provocava frequentemente ferimentos e dedicou-se particularmente aos métodos de projecção, aperfeiçoando vários da sua autoria.

Kano pensou que a sua nova arte devia ter outro nome, pois a sua prática era diferente do jiu-jitsu. Tendo em conta a sua essência, a não resistência e o aproveitamento da força do oponente chamou a esta nova arte «judo».

O KODOKAN

Jigoro Kano baptizou a sua escola de Kodokan que significa «Escola para o Estudo da  Via» e, como já se disse começou a ensinar o judo a partir de 1882 numa modesta sala do templo budista de Eisho (Tokyo).

O primeiro aluno inscreveu-se a 5 de Junho de 1882, chamava-se Tomita. Depois vieram Higushi, Nakajima, Arima, Matsuoka, Amano Kai e o famoso Shiro Saigo. Este último tornar-se-ia campeão imbatível de judo, alcançando inúmeras vitórias sobre os adeptos do antigo ju-jitsu. As idades destes primeiros alunos oscilavam entre os 15 e os 18 anos. Kano albergou-os e ocupou-se deles como se fosse um pai. O dojo contava apenas com 10 tatamis. O Kodokan aceitou inúmeros reptos lançados pelos professores do ju-jitsu.  Em 1883, o Kodokan mudou-se para Kojimachi e transformou em dojo o armazém de um editor chamado Shinagawa. No ano seguinte, o dojo aumentou para 40 tatamis.

Os encontros entre as diversas escolas de ju-jitsu multiplicavam-se. Tratavam-se, muitas vezes, de verdadeiros concursos em que os vencedores eram escolhidos para professores da polícia.

O Kodokan alcançou a sua primeira vitória em 1886: os seus famosos discípulos Saigo e Yoko-Yima foram particularmente notados. Secções do Kodokan criaram-se em Nirayama, Edajima, e Kyoto. O Kodokan apenas conheceu uma derrota: um formidável ju-jitsuka, chamado Tanabé, derrotou regularmente todos os seus campeões. Especialista do combate no solo, conseguia atirar os seus adversários ao chão e aproveitando-se das suas posições junto ao solo, estrangulava-os rapidamente. Destas derrotas Kano tirou uma lição, precisava de aperfeiçoar o judo no solo e todo o judoca deveria conhecer a luta tanto na posição de pé como no chão.

Em Abril de 1890 Kano mudou as instalações para Hongo-ku, Nasago-cho passando a contar com 60 tatamis. O judo estava agora definitivamente estabelecido. De ano para ano, o Kodokan aumentava o seu dojo. Enquanto Kano fazia as suas primeiras viagens pelo mundo e apresentava o judo na Europa e na América, confiava aos seus melhores alunos a direcção do Kodokan.

Em 1894 a sede passou-se para Koishikawa-ku, Shimotomisaka-cho contando com 107 tatamis. Em 1897 o governo japonês instituiu uma escola nacional de todas as artes marciais, o Butokukai. O judo passa a ser já ensinado pelos mestres Isogai, Nagaoka, Samura, Tabata e Kurihara. Em 1898 a superficie passou a ser de 314 tatamis depois da transferência para Otsaka, Sakashita-cho.

Embora estes ensinamentos fossem ministrados sob a orientação de Kano, o Butokukai não tardou em transformar-se em rival do Kodokan. Alguns anos mais tarde as escolas superiores e profissionais, patrocinadas pela Universidade Imperial de Tóquio, formavam outra federação: o Kosen. Os magníficos judocas destas duas últimas escolas fizeram a vida negra aos campeões do Kodokan. Contudo, este continua a sua ascensão. O seu último dojo é o maior do todo o Japão: 514 tatamis. O judo é, por fim ensinado oficialmente nas escolas. Nas classes secundá- rias e mesmo em inúmeras classes primárias o judo faz parte do programa do curso. 

O Gokio, como método pedagógico é organizado por Kano com a ajuda dos mestres Yoko-Yama, Yamashita, Nagaoka, Iitsuka.  As técnicas perigosas são eliminadas. O gokio voltaria a ser revisto em 1920 por uma dúzia dos maiores mestres e mantém-se inalterável até aos nossos dias.

Em 1909, o Kodokan torna-se uma instituição pública. É nesta época que os katas, estabelecidos pelo Butokukai, são ensinados no Kodokan e formam os primeiros fundamentos do judo: o nage-no kata, o kime-no kata e o katame-no-kata vêm juntar-se ao ju-no-kata e itsutsu-no-kata, elaborados em 1887.

O número de mulheres que praticam judo aumenta, cedo uma secção feminina é inaugurada. Kano pensa em elaborar um curso de formação para professores. Além disto o Kodokan, é dotado de associações culturais, de comissões de pesquisas, de comissões de estudo, etc.

Quando Jigoro Kano morreu, cerca de 120.000 judocas estão oficialmente recenseados dos quais 85.000 são cintos negros.

Foi pena que Jigoro Kano não tivesse pudido assistir em Março de 1958 à inauguração do moderníssimo edifício que alberga hoje o Kodokan.

Para além do imenso tapete com 500 tatamis, tem mais três salas com 108 tatamis e três salas com 54 tatamis, contando com cerca de 2.000 m2 de áreas praticáveis destinadas a treino de competição, treino de mulheres, crianças, alunos particulares, estrangeiros, etc., com possibilidade de acolher estudantes especiais, assim como os monitores.

O JUDO APÓS A 2ª GUERRA

Sob o domínio Americano o Japão viu-se obrigado a alterar muitas das suas tradições. Os americanos interditaram todas as actividades inspiradas no bushido. As  artes marciais e o judo foram proíbidos. O judo só podia ser praticado nas escolas.

Em 1946, os professores do Kodokan foram autorizados a ensinar judo... apenas às tropas americanas. Depois o judo foi permitido na condição de se apresentar, não como uma arte marcial, mas como um desporto. O Butokukai é definitivamente suprimido e o Kosen é forçado a decalcar as suas actividades pelas do Kodokan.

Até então o judo fora difundido sobretudo no Japão. Somente Kano e alguns dos seus discípulos o haviam introduzido na Europa e na América.

Em Inglaterra, França, Estados Unidos, Argentina, etc. começaram a despontar os primeiros iniciados no Judo. O judo iria expandir-se pelo mundo inteiro em pouquíssimo tempo.

Em 1950 cerca de 150.000 judocas são cintos negros. No ano seguinte as forças americanas autorizam o ensino do judo nas escolas japonesas. Em 1952, quando do 70º aniversário da criação do judo, contavam-se, somente no Japão, 200.000 cintos negros.

Em 1956 o Japão organiza os primeiros campeonatos do mundo, em Tóquio, Natsui foi o grande vencedor. Em 1958, de novo em Tóquio, realiza-se a final do segundo campeonato do mundo: Sone bate Kaminaga.  Desde o fim da guerra, mais de 15.000 estrangeiros estagiaram do no Japão, a fim de se aperfeiçoarem.

O JUDO NA EUROPA

Na Grã-Bretanha, o judo foi introduzido por mestre Koizumi. Mas, até ao fim da segunda guerra mundial, não se desenvolveu muito, sendo apenas praticado por um restrito grupo de pessoas. Por várias vezes os judocas ingleses receberam a visita de mestres japoneses. Uma associação britânica, similar ao Kodokan e que tem o nome de Budokwai, passou a promover o judo neste país.

Em França, mau grado as visitas de Kano e outros especialistas nipónicos, o judo não teve êxito. Contudo em 1905, Guy de Montgaillard (apelidado Ré-Nié), abriu uma sala destinada ao ensino do ju-jitsu.  Os seus reptos, sempre vitoriosos, endereçados aos boxeurs e lutadores, a par de uma boa propaganda, lançaram, na época, a moda de uma «misteriosa arte de lutar», de golpes tão secretos como formidáveis. Outro francês, mais aventureiro ainda e que vivera em Tóquio, o oficial de marinha Le Prieur, torna-se o primeiro cinto negro da França. Mas, apesar da visita de Ishiguro e o entusiasmo de alguns fanáticos, o judo não se consegue fixar em França.

Em 1935, um japonês, Mikonosuke Kawaishi, que vivia em Paris, principia a ensinar o judo segundo uma técnica pessoal.  Um dos seus méritos foi assinalar os graus dos judocas com cintos de cores diferentes. Em seguida dividiu os golpes em grupos, cada técnica foi numerada, assim, uma projecção em que se desequilibra o adversário, varrendo-lhe a perna por detrás, é uma «projecção de pernas» e como esta era a primeira projecção ensinada por Kawaishi, chamou-lhe simplesmente «primeira de pernas».

E, assim, duas novidades racionais e psicológicas foram suficientes para popularizar o judo em França. Em 1943 quando teve de regressar ao Japão, Kawaishi formara já mais de 100 judocas. Quando do seu regresso a Paris em 1948, encontrou o judo francês em pleno progresso. Retomou de novo a sua direcção e difunde-o na Europa inteira.  Embora inúmeras críticas fossem emitidas contra o seu método, Kawaishi deve ser considerado o verdadeiro fundador do judo europeu.

O judo espalha-se pelo mundo a pouco e pouco e alguns iniciados, disseminados por todos os países, trabalham na sua difusão. Alguns livros sobre o antigo ju-jitsu ou sobre o judo, constituíam a única fonte de informação destes professores improvisados.

Após a segunda guerra mundial, o público, ainda condicionado pela agressividade de tantos anos de hostilidade, sentia inconscientemente a necessidade de se defender. Sem o saberem, foi este o fenómeno psicológico explorado pelos pioneiros do judo. A fórmula «A defesa do fraco contra o agressor» ou, como lhe chamou Armando Gonçalves «0 Fraco Vence o Forte», fez furor.

Iniciou-se o período mágico do judo. Os professores ensinavam uma estranha mistura de ju-jitsu antigo, de judo, de luta e de boxe. A autodefesa estava na ordem do dia e muitos amadores inciaram-se nos «terríveis golpes secretos».

O trabalho de Kawaishi começava no entanto a dar os seus frutos. Os primeiros cintos negros franceses ensinavam na Bélgica, Espanha e Países Baixos, amadores de todos os países vinham de longe para receberem algumas lições dos mestres, pouco a pouco, os primeiros objectivos eram conseguidos. A técnica melhorou, os «professores improvisados» tornaram-se verdadeiros professores. Japoneses, com altas graduações, vieram de passagem ou até mesmo para se instalarem na Europa. Pouco a pouco, o autêntico judo de Jigoro Kano foi ensinado por toda a parte.

Técnicos europeus publicaram várias obras e a célebre revista «Judo do Kodokan» foi traduzido para o francês e inglês. Esta iniciativa, devida a um grupo de judocas entusiastas, permitiu publicar, cinco vezes por ano, os textos originais da revista do Kodokan, desde o princípio.

O Ocidente instruía-se assim, directamente, na origem. Todo o judoca, principiante ou especialista, passou a ter à sua disposição uma documentação única no mundo sobre o seu "desporto" favorito. O período desportivo começava. Cada país organizava a sua própria federação nacional, os primeiros campeonatos vieram à luz do dia e em Paris teve lugar, em 1951, o primeiro campeonato da Europa, ao qual assistiu Risei Kano, filho do fundador do judo, e que foi nomeado, na ocasião, presidente da Federação Internacional. 

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Anthon Geesink - Jogos Olímpicos de Tokio

 

Bibliografia: